Ainda em desenvolvimento, a transcriptômica espacial (TE) tem ganhado espaço por fornecer informações que outras técnicas ainda não foram capazes de endereçar. O transcriptômica de alta performance (RNA-seq) permitiu a análise em larga escala dos perfis de expressão gênica, porém perde-se a informação de quais células tal expressão se origina. A transcriptômica de células únicas (scRNA-seq) endereçou essa limitação. A expressão, como objeto, passou a ser analisada conjuntamente com as células, enquanto sujeitas, em seus variados tipos e estados. Contudo, perde-se ainda a informação de localização destas células, impedindo análises que considerem a sua vizinhança ou estrutura tecidual. Este é o ponto em que se insere a TE: permite avaliar o perfil de expressão gênica, resgatar informações dos tipos celulares e avaliar o microambiente celular dos tecidos. Assim, a TE insere contexto à análise de expressão gênica.
Dados single-cell têm sido utilizados pela comunidade científica há mais de dez anos e isso contribuiu para a maturidade técnica na análise desses dados (Quake 2022), como estabelecimento de protocolos padrão para demultiplexagem, correção dos dados, normalização de lotes. No campo da TE, apesar de haver um grande acréscimo de produção de dados, ainda existem lacunas de análise e preprocessamento desse tipo de dados. Os dados de TE enfrentam diversos desafios, como: redução do ruído em visualizações, compensação de dados com baixa resolução, clusterizações direcionadas por localização e outras (Fang et al. 2023).
Resumidamente, dados de TE são semelhantes aos dados de scRNA-seq uma
vez que a estrutura básica consiste em um número n de células —
spots no caso da TE — e um número f de
Features, i.e. transcritos. Fundamentalmente, a principal
diferença entre single-cell e TE consiste em que a segunda possui
spots com coordenadas espaciais x,y. Assim, os
primeiros esforços de visualização de dados de TE focaram em apresentar
o sinal de maneira discreta, i.e. um sinal para cada spot. Essa
abordagem foi adotada pelo pacote Seurat (Hao et
al. 2023), que já está consolidado dentre a comunidade R. Além
disso, uma das primeiras abordagens de projeção do sinal de TE de
maneira contínua foi o pacote PathwaySpace (Tercan et al. 2025; Ellrott et al. 2025),
implementado pelo grupo de pesquisa do autor.
Considerando as versões 1 e 2 da plataforma Visium (10x Genomics, Califórnia EUA) (Ståhl et al. 2016), existe um espaço entre-spots de 100 µm. Por essa razão, a projeção com PathwaySpace permite uma visualização contínua e harmônica do sinal. Além disso, a estrutura de dados do objeto PathwaySpace consiste em considerar cada spot como um vértice de um grafo, que está dentro de um sistema de coordenadas normalizado.
O pacote CellChat recebe dados de scRNA-seq ou TE anotados e cria inferências de comunicação célula-célula (Jin et al. 2021; Jin, Plikus, e Nie 2025). Tal inferência é calculada através comparação de grupos de spots que pertençam a um mesmo tipo celular. Com isso, a visualização da comunicação celular oferecida pelo pacote fica restrita. Nesse contexto pretende encaixar-se o presente projeto de análise: harmonizar os dados de comunicação celular para uma visualização contínua a nível de spot. Para tanto, se pretende utilizar a infraestrutura já disponível no pacote PathwaySpace.
Estabelecer uma estratégia de análise que apresente uma visualização contínua de pares ligante-receptor enquanto dado de comunicação celular em dados de transcriptômica espacial.
PathwaySpace.PathwaySpace.Neste projeto, foram utilizados dados de transcriptômica espacial do
conjunto stxbrain, processados em R e convertidos para um
objeto PathwaySpace compatível com o fluxo de análise. O
dataset stxbrain é obtido através do pacote Seurat
e consiste em um corte sagital de um encéfalo de camundongo. O
stxbrain possui 2.696 spot e 17.668
features (transcritos).
O mesmo dataset foi preprocessado e utilizado como entrada do pacote CellChat. Assim, gerou-se um data frame com a inferência de todos os pares ligante-receptor entre os spots vizinhos. Com o os datasets de TE e de comunicação celular em mãos, a análise final de visualização foi realizada.
Todos os códigos, objetos intermediários e vinhetas necessários para a realização do projeto estão disponíveis no repositório:
https://github.com/flaviogckessler/BioSys_Project
Arquivos principais do projeto:
Setup_GraphSpaceObj_stxbrain.Rmd: preparação do objeto
GraphSpace a partir dos dados stxbrain.CellChat_vignette.Rmd: inferência de comunicação
célula-célula com CellChat.CellChat_ProximityNetwork_PathwaySpace.Rmd: análise
principal e visualização das interações espaciais com
PathwaySpace.stxbrain_Normalized_GraphSpace.RData: dataset
stxBrain normalizado e convertido como objeto
GraphSpace.spot-spot_commu_Allbrain.rds: pares de comunicação
celular a nível de spot inferidos com CellChat.bibliography.bib: referências bibliográficas utilizadas
no projeto.Relatorio_FlavioKessler_BioSys.Rmd: Arquivo do
relatório final do projeto de análise.Figura 1. Fluxo geral da análise realizada no projeto. Na primeira vinheta, o dado de transcriptômica espacial é carregado, preprocessado e armazenado. Na segunda vinheta, a inferência da comunicação celular é conduzida utilizando o pacote CellChat. Por fim, a última vinheta manipula o objeto PathwaySpace e apresenta uma visualização com o sinal da comunicação celular projetado no dado de transcriptômica espacial. Imagem gerada por IA.
O fluxo de trabalho seguiu as seguintes etapas:
stxBrain).GraphSpace.CellChat.PathwaySpace.A descrição pormenorizada do preprocessamento dos dados espaciais está disponível na primeira vinheta do fluxo de trabalho, por favor acessar:
1ª Vinheta Setup vignette
A inferência da comunicação celular está descrita em detalhes na segunda vinheta do fluxo de trabalho, por favor acesse:
2ª Vinheta CellChat vignette
Os métodos utilizados para conduzir a integração dos dados espacias com a comunicação celular e a posterior visualização com o pacote PathwaySpace estão disponíveis em:
3ª Vinheta PathwaySpace cell communication vignette
A estrutura de análise central do pacote CellChat calcula a inferência da comunicação celular em agrupamentos de células/spots. Tais agrupamentos podem ser, por vezes, tipos celulares como na Figura 2 abaixo. No caso do fluxo de trabalho utilizado no projeto, foram utilizados grupos clusterizados de spots. Assim, a visualização da inferência oferecida pelo pacote de referência, CellChat, agrega os spots nos agrupamentos utilizados de entrada na análise (Vide Figura 2). Assim, a visualização oferecida (i) não possui uma resolução a nível de spot, como também (ii) não permite projeção contínua do dado analisado.
Figura 2. Figura-exemplo da plotagem do CellChat. O pacote CellChat agrega os tipos/grupos celulares para plotar os dados de inferênca de comunicação celular. Imagem retirada de vinheta do CellChat.
Fonte: material complementar disponível em Vinheta CellChat.
A Figura 3 apresenta seis exemplos de pares ligantes-receptor entre spots vizinhos. Como pretendido, foi possível utilizar a infraestrutura do pacote PathwaySpace para realizar um visualização contínua que possua resolução a nível de spot. Em comparação com a figura de referência oferecida pelo CellChat (Vide Figura 2), a visualização gerada pelo projeto de análise apresenta uma maior granulosidade a agrega de maneira intuitiva a informação espacial. Tal informação é apresentada uma vez que a projeção do sinal abrange apenas os spots vizinhos que possuem relação de comunicação celular. Apesar de a Figura 3 apresentar apenas seis exemplos, é possível realizar a a visualização para todos os pares de ligante-receptor disponíveis.
Figura 3. Visualização final proposta pelo projeto de análise. Os painéis A–F apresentam seis diferentes visualizações de pares ligante-receptor de spots vizinhos em dados de transcriptômica espacial.
Apesar de o objetivo principal do projeto de análise ter sido atingido, é necessário considerar algumas limitações que restringem a abrangência dos resultados obtidos:
GraphSpace/PathwaySpace. A filtragem conduzida pela
análise, que alterou diretamente os slots dos nós e arestas, é
considerada subótima por contornar as estruturas internas de validação
do objeto.Dado o objetivo estabelecido, o projeto foi capaz de apresentar uma estrutura coesa de análise para a visualização contínua da comunicação celular em dados de transcriptômica espacial. Como apresentado, o projeto possui diversas limitações de uso e sua interpretação biológica deve ser considerada, por ora, com cautela.
O fluxo de trabalho oferece uma solução para a visualização de sinais de dados relacionais no contexto da TE. Com isso, a estrutura de análise pode ser triangulada para quaisquer dados que atendam as seguintes premissas: que possua um (i) sinal único para a renderização final e que (ii) pretenda agregar a informação espacial de spots vizinhos. Assim, a estrutura da análise não limita-se apenas aos dados de comunicação celular.
Por fim, é possível dizer que as projeções finais apresentaram uma maior granulosidade que a visualização de referência. Além disso, a abordagem agrega necessariamente a informação espacial.
Ao longo do preparo do relatório final a ferramenta de inteligência artificial GPT-5.5 Thinking (OpenAI,Califórnia EUA) foi utilizada em algumas tarefas relacionadas ao desenvolvimento do trabalho. Todos os usos da ferramenta são listados na tabela abaixo. Declara-se que todos os promps foram redigidos pelo autor e que este, além de ter revisado todas as respostas fornecidas pela ferramenta, assume total responsabilidade em relação ao material produzido.
| Ferramenta de IA | Forma de uso | Parte do trabalho |
|---|---|---|
| ChatGPT | Organização da estrutura do relatório técnico em formato R Markdown. | Estrutura básica do documento. |
| ChatGPT | Solução de bugs durante a redação dos scripts. | Materiais e Métodos; scripts e vinhetas. |
| ChatGPT | Apoio na descrição metodológica do fluxo computacional utilizado no projeto, especificamente na vinheta ‘CellChat_vignette.Rmd’ | Materiais e Métodos; vinheta ‘CellChat_vignette’. |
| ChatGPT | Conversão do script R para a estrutura básica da vinheta em R Markdown. | Materiais e Métodos; vinheta ‘Setup_GraphSpaceObj_stxbrain’. |
| ChatGPT | Auxílio na gestão do repositório GitHub. Sugestão de comandos no Git Bash, como ‘git status’, ‘git add’, ‘git commit -m’, ‘git push’. | Repositório do GitHub |
| ChatGPT | Apoio na resolução de problemas técnicos relacionados à compilação do relatório em PDF a partir do R Markdown. | Formatação e compilação do documento final. |
| ChatGPT | Elaboração da imagem de fluxo de trabalho. | Visão geral. |
| ChatGPT | Adaptação das referências no modelo Bibtex. | Referências |